08.02.2010 - Central Esportiva / Frederico Batalha
Confira na íntegra a entrevista com um dos nomes importantes do basquete brasileiro. Declarações importantes e informações que você jamais leu.
Como você viu o ano de 2009 para o basquete brasileiro?
Uma esperança de mudança, que não se realizou.
Quais as perspectivas para 2010?
Mais do mesmo.
Há alguns anos, você tem postulado uma chance no comando da Seleção Brasileira Adulta Masculina. Por que se considera o nome ideal para este cargo no momento atual?
Porque eu acredito no basquete brasileiro.
Por que você não foi o escolhido? Quais pontos fizeram a Confederação Brasileira de Basketball (CBB) optar por um outro nome?
Sinceramente não sei.
Como você avalia a política no basquete brasileiro?
Uma ação entre amigos.
A CBB teve uma eleição recente e ocorreu uma mudança no seu comando, com a saída de Gerasime Boziks e a entrada de Carlos Nunes. O que mudou, de fato, com a troca de presidente na entidade maior do nosso basquete?
O fato é que sim, mudamos os nomes. O basquete, entretanto, não vive só de nomes.
Você acredita que a sua personalidade forte, aliado ao seu egocentrismo, e ao fato de ter sido um jogador de alto nível são aspectos que deixam jogadores e dirigentes com medo do contato diário?
Personalidade forte é um termo que está colocado entre competência e arrogância. Egocentrismo é muitas vezes confundido com a certeza de fazer sempre o que é melhor, no caso, para o basquete. O medo pode ser um bom começo, pois indica respeito e atenção ao que é novo.
No basquete eu não tenho `persona´, quero dizer, eu não represento papel algum.
Para mim, viver o basquete é ser o que sou. Uma vez uma repórter me perguntou se eu era um técnico paizão, ou um treinador disciplinador. Respondi-lhe que eu era um técnico que treinava e que fazia sempre o que era melhor para a equipe (não para mim ou para um jogador).
Obviamente isso provoca uma reação de aversão inicial nas pessoas, mas quando me conhecem melhor, elas entendem meus objetivos e muitas me agradecem, tempos depois, pelas mudanças que provoquei não só no jogo, como também na sua maneira de encarar a sua vida.
O problema é que eu sempre fui assim com o basquete e não entendi no princípio que uma coisa era ser assim sendo o jogador que fui, outra é ser assim como técnico.
O jogador tem mais liberdade de ser ele mesmo, já o treinador tem que negociar com a opinião de arrogância, egocentrismo e medo que têm dele.
De qualquer maneira, eu sei que só encarando e se encarando de frente, pelo menos no basquete, é que teremos sucesso.
Como você avalia as chances do Brasil no Mundial Masculino? Passaremos da primeira fase? E, depois?
Como sempre são boas. Depois vem a Argentina e o campeonato começa realmente.
O que você espera do Rubén Magnano no comando da Seleção?
Aqui em Jundiaí conheço uma família de argentinos. É uma família maravilhosa: educados, simpáticos, filhos belíssimos. O pai jogou basquete na Argentina. Um dos filhos disputa os campeonatos de basquete aqui na cidade.
Dia desses lhe perguntei se ele iria gostar que um brasileiro dirigisse a seleção argentina.
Ele me deu um sorriso entre o irônico e ofendido que durou quase meio segundo para depois se recompor e me dizer que por ele não, mas que não via problema se isso acontecesse. Sei...
Essa história é para dizer que eu espero o primeiro jogo “valendo três pontos” entre Brasil e Argentina para dar o meu parecer sobre o nosso novo treinador.
E a passagem do espanhol Moncho Monsalve, como foi, na sua visão?
Quase sempre um ato vale mil vezes mais do que uma declaração formal.
A passagem de Monsalve foi à prova definitiva de que a CBB considera os treinadores de basquete brasileiros como uma sub-classe.
O que você pode dizer deste novo momento de sua carreira, iniciando um trabalho no GR Barueri? Quais são os objetivos iniciais do projeto?
Barueri é um excelente lugar para se iniciar um trabalho em longo prazo, como o nosso, que visa entender e jogar basquete de uma maneira diferente.
No Brasil, a conquista de títulos pode apontar a qualidade de um técnico e/ou jogador?
Para alguns,sim.
Desde as escolinhas é mais importante conquistar títulos do que ensinar apropriadamente o jogo.
E, o NBB. Que análise você faz destes dois anos de disputa da competição nacional?
É um começo muito promissor e esperamos que decole definitivamente nos próximos anos.
Escola de Técnicos. Pelo que vemos no noticiário, estamos no caminho certo? Vai dar certo ou não sairá do papel?
Não podemos discutir escola de técnicos enquanto essa for criada de cima para baixo, ou seja, organizada pela própria CBB.
Não falo de ruptura, mas de total independência de idéias e conceitos do jogo.
É claro, que a CBB tem o direito de reunir treinadores e traçar o seu plano de ação.
Falo do basquete “na veia”, praticado nas escolas, nos clubes, nos parques municipais, nas trincas e nos campeonatos das federações.
É preciso discutir, criticar, brigar por ideais e ir contra o “status quo” sem medo de censura ou revanches.
Criar uma escola de técnicos cujo objetivo não seja o de difundir o conhecimento e o ensino apropriado do jogo, mas sim o de formar comissões que farão subcomissões para não chegarem a uma conclusão de como prosseguir, é afirmar que não sabemos que não sabemos.
Uma escola de técnicos indica o caminho e não segue o caminho indicado por quem não é técnico nem tem afinidade alguma com a nossa história e profissão.
Com certeza, o nosso atual modelo não terá tal autonomia.
Qual país deve servir de modelo ao basquete brasileiro?
Nenhum... Ou todos!
Na nossa história como povo só tivemos sucesso quando nos misturamos, absorvemos a cultura dos outros povos e criamos a nossa própria maneira de viver.
Temos muitos defeitos, mas nossas qualidades são excepcionais e admiradas por todos.
No basquete não é diferente. Quando aplicarmos os conceitos de jogo internacionais dentro da nossa maneira de jogar, seremos invencíveis, pois liberaremos nossa criatividade e intuição dentro de um propósito de jogo.
Se não for assim, seremos sempre uma cópia do basquete espanhol, ou do basquete argentino, ou da NBA, ou de quem estiver na moda.
O que você chama de Treinamento Apropriado?
Como o próprio nome já diz é o treinamento apropriado para desenvolvermos as nossas características físicas, técnicas e culturais, dentro do atual momento do jogo praticado nas grandes competições internacionais de nível (Mundial e Olimpíadas, digo pré-olímpicos).
Cite um momento marcante, visto pelo lado positivo, em sua carreira como atleta. E negativo?
Sem dúvida alguma o Pan de Indianápolis.
Os negativos, como diz minha mãe, eu já me esqueci de me lembrar.
Basquete ou Medicina. Se você tivesse que optar por uma única área a seguir a partir de hoje, qual seria?
Amor ou missão?
Eu amo o basquete mais do que tudo. A medicina é a minha missão.
Na verdade não escolhemos nossa missão. Geralmente é ela que nos escolhe.
A medicina me escolheu depois de um treino na Bradley em 76, quando me olhei no espelho e a vi dentro de mim.
Por ela deixei o basquete de alto nível que praticava e no qual tinha um grande futuro.
A princípio não entendia como pude ter escolhido esse destino, mas compreendi (um pouco tarde) que eu não existiria na minha plenitude como pessoa se não atendesse a minha missão.
Tivesse percebido antes, minha vida com certeza teria sido muito mais completa.
Hoje preciso da medicina como ar que respiro e não me vejo mais longe dela por motivo algum.
Já o basquete sempre me exigiu mais e mais amor, mais e mais provas, mais e mais dedicação por uma promessa de sucesso vã que sempre foi difícil de conseguir, e quando acontecia era para que eu o desejasse ainda mais.
O amor dói. Machuca.
Por que, senão por amor, suportamos tanta desfaçatez, tanta incompreensão, tantos sacrifícios em vão, tantas críticas por tão poucos e efêmeros sucessos?
Por que, se não por amor, mesmo incompreendidos e não correspondidos ainda acreditamos na felicidade e nas grandes conquistas?
Porque ainda amamos incondicionalmente o basquete se ele já nos deu provas suficientes e definitivas de que fomos apenas um dos seus instrumentos de manipulação nas suas frígidas mãos e no seu coração vazio?
O basquete nos deu sim algumas vitórias, mas apenas por capricho.
Agora não nos quer mais, mudou de ares... Olha apenas para o exterior e ignora quem o defendeu e se sacrificou anos a fio por apenas um sorriso dele.
Mesmo assim aguardamos o seu chamado...
Vai saber...
“Se isso não é amor, o que mais pode ser?”
O ‘Funk do Basketero’ foi um protesto bem humorado e sarcástico, mas que não foi muito bem aceito por muita gente. Você acha que ele atingiu os seus anseios? Teremos mais alguma ação nesse sentido?
Só reconhecemos nos outros aquilo que também temos dentro da gente.
MC L.Doctor tocou fundo nas feridas do basquete brasileiro e é claro levou pau de A a Z.
O que o Funk trouxe foi uma crítica construtiva ao basquete brasileiro numa maneira divertida de expressão.
Eu diria que passei mais de 12 anos defendendo as quadrinhas zombeteiras de MC L.Doctor de maneira séria e ponderada fazendo editoriais, artigos, entrevistas e comentários em todos os canais da mídia e nunca tive a penetração obtida com o Basketêêêro!
Se houve críticas ao funk, como no início disse, é porque o que foi apresentado tocou lá no fundo e a turma sentiu.
Não será esse o início de uma mudança
Tem mais um representante da família de Souza, também oriundo de Jundiaí (SP), despontando. O que você pode falar das perspectivas de carreira do seu sobrinho?
O Rafael, filho do Maury, sobrinho do Marcel e neto do Romão (in memorian) teve a oportunidade de ser educado e ensinado dentro dos preceitos fundamentais do jogo de basquete e seguramente terá sua chance de mostrar de onde vem.
Mensagem final:
“Que saudades do Zé Cláudio...”
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Equipe CentralEsportiva
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